Cantos Contados

Por Rubem Amorese

“Abri minh’alma para caminhar a vida. Dei meu tempo aos amigos, à cidade e seus ensinos; minhas energias desejavam todo o prazer. Pela cidade ouvia a voz da sabedoria: cada muro, cada rua e praça, cada porta gritavam não ser lá o meu lugar.

Do meio da praça, contemplei teu altar; junto às portas de tua casa, encontrei o meu lugar.

O temor do Senhor trouxe o saber do caminhar na vida com gozo e prazer!”

Diante de tão inspirador casamento do provérbio (1:33) com o salmo (84:10) – um canto em forma de prosa, ou uma prosa poética formatada em versos – a salientar a sabedoria da inspiração divina, como resistir ao convite de “caminhar a vida” junto com essa poetiza? Melhor ainda é deixar-se levar por ela, por caminhos encantados.

Basta começar a ler para não parar mais. A não ser para personalizações nossas, talvez jamais pretendidas por ela. Sim, o que faremos com seu texto será só nosso. No entanto, a julgar pelo caminho apontado, há de ser experiência profunda e inspiradora. Certamente, abriremos nossa alma para caminhar a vida.

Surpreendo-me já a caminho: em que cantos encontro os contos que devo cantar? E como cantar o conto dos cantos que ouvi, se todo canto é desencanto? Mas se, enquanto canto, já não conto o que vivi, por que contar? Coisa antiga, sem altar! Pois bem, eu conto o que me encanta: dos cantos onde O vi, trago cantigas de cantar.

Em seu texto rápido, sutil e leve, ouço a Dora perguntar: onde está a sabedoria que nos permita caminhar na vida com gozo e prazer? Onde encontrar o encanto da vida; visão que me liberte das prisões amargas do meu fútil saber? Tais questões existenciais seriam inquietantes se as respostas ela não as buscasse na Sabedoria e daí nos trouxesse sua resposta: é desses cantos de Presença que surgem os “Cantos Contados”.

A sabedoria é dom de Deus. Não a encontramos facilmente nas praças, nos muros, nas ruas, nas portas. Na verdade ela está, sim em todos esses lugares existenciais, mas não somos capazes de percebe-la enquanto não os transformamos em altares. Pois os altares são marcas da presença de Deus em nossas vidas.

Minha oração é que nos deixemos conduzir pela Dora “às portas de Tua casa” e, tendo encontrado lá o nosso lugar, cantemos, em companhia do sábio e do salmista, os cantos e contos da vida.